Introdução
A escolha de um motor de relatórios é um dos pontos mais críticos — e muitas vezes irreversíveis — na vida de um programador. Não é uma decisão de conveniência: é uma aposta de longo prazo. Na prática, raramente se adota mais de um gestor de relatórios no mesmo projeto: cada ferramenta impõe seu próprio modelo de design, suas APIs e dependências. Trocar depois significa reescrever todos os relatórios do zero. Se a ferramenta escolhida for descontinuada ou perder suporte, a equipe ficará presa a um legado caro e arriscado. Por isso, a decisão envolve o ciclo de vida da manutenção, a infraestrutura do servidor e a autonomia necessária ao usuário final — e exige que o desenvolvedor pense em anos, não em sprints.
Vale planejar desde o início. Uma boa prática é manter os relatórios fora do binário principal: usar bibliotecas dinâmicas (por exemplo, .so no Linux ou .dll no Windows) ou definições em arquivos externos, de forma que alterações e correções em relatórios não exijam recompilar toda a aplicação. Evite embutir a definição dos relatórios dentro do código do programa principal; assim você ganha flexibilidade para evoluir ou até trocar de motor no futuro, sem refatorar o núcleo da aplicação.
Abaixo, apresentamos uma análise técnica das principais opções do ecossistema Lazarus/FPC, com contexto sobre origem, mantenedores e cenários de uso.
Neste artigo
- Introdução
- LazReport
- fpReport
- Fortes Report Community Edition (FRCE)
- FastReport (Lazarus Edition)
- fpSpreadSheet
- FPDF (fpdf4lazarus)
- PowerPDF
- Conclusão
LazReport
O LazReport foi criado por golivier no SourceForge em setembro de 2004, baseado no FreeReport 2.32, e hoje é mantido pela comunidade do Lazarus como parte do ecossistema oficial da IDE. Ele vem integrado à instalação padrão do Lazarus (embora precise ser ativado via gerenciador de pacotes) e segue um paradigma muito próximo ao FastReport do Delphi: foca em um designer visual independente do código-fonte. Diferente do Fortes Report, onde o design acontece no formulário, o LazReport oferece um editor próprio que centraliza a construção do layout, quase dispensando programação manual para relatórios padrão.
Para quem está começando com Pascal, o LazReport oferece uma vantagem estratégica importante: por fazer parte do repositório oficial do Lazarus e ser mantido junto com a IDE, ele tende a acompanhar o ciclo de vida do próprio projeto. Isso reduz o risco de ter que reescrever relatórios no futuro por falta de manutenção — uma preocupação legítima ao escolher ferramentas de terceiros ou projetos comunitários sem garantias institucionais.
Nível de dificuldade de aprendizado: Baixo a Médio. O editor visual independente do código facilita o aprendizado para quem vem do FastReport ou de ferramentas WYSIWYG. A curva aumenta quando se exige lógica avançada ou integração profunda via código Pascal.
- Interface de design poderosa e intuitiva para usuários.
- Suporta a criação de variáveis customizadas em tempo de execução.
- Facilidade em criar relatórios puramente visuais (low-code).
- Integrado à instalação padrão do Lazarus; exportação PDF via PowerPDF, XLS/ODS via fpSpreadsheet.
- Relatórios podem ser ajustados sem recompilar a aplicação.
- Recebe atualizações regulares junto com a IDE.
- Menos flexível que o Fortes para lógicas complexas via código Pascal puro.
- A manutenção de fórmulas complexas dentro do editor pode ser difícil de rastrear.
- Dependência da LCL; inviável para servidores headless.
- Depende de pacotes externos (PowerPDF, fpSpreadsheet) para algumas exportações.
Guia detalhado: Relatórios com LazReport. Wiki: Wiki LazReport
fpReport
O fpReport foi iniciado por Graeme Geldenhuys e concluído em 2016 como projeto da Free Pascal and Lazarus Foundation. O componente de design visual foi criado depois por Michael Van Canneyt e integrado ao repositório do Lazarus. Foi pensado desde o início para rodar em servidores sem interface gráfica: não depende de LCL nem de display. É o motor de relatórios moderno do FPC, adequado a microsserviços, APIs REST e aplicações web em backend.
Para quem está começando com Pascal, o fpReport oferece uma vantagem estratégica importante: por ser mantido oficialmente pela Free Pascal and Lazarus Foundation, ele nunca ficará sem suporte ou será descontinuado enquanto o ecossistema FPC/Lazarus existir. Isso elimina o risco de ter que reescrever relatórios no futuro por falta de manutenção — uma preocupação legítima ao escolher ferramentas de terceiros ou projetos comunitários sem garantias institucionais.
Nível de dificuldade de aprendizado: Médio a Alto. O paradigma de design abstrato (baseado em JSON ou código) exige uma mudança mental em relação às ferramentas visuais tradicionais. A curva de aprendizado é mais íngreme, especialmente para desenvolvedores acostumados com editores WYSIWYG. No entanto, uma vez dominado, oferece controle total e flexibilidade.
- Independência total de GUI. Perfeito para APIs REST e serviços de backend.
- Suporte oficial da Foundation garante continuidade a longo prazo.
- Relatórios podem ser definidos em JSON, facilitando versionamento e manutenção.
- Funciona em servidores headless sem necessidade de display virtual.
- Integrado ao repositório oficial do Lazarus.
- Permite renderização para múltiplos formatos (PDF, imagem, tela).
- Paradigma de design abstrato; exige maior tempo de adaptação da equipe.
- Editor visual disponível, mas menos intuitivo que ferramentas comerciais.
- Curva de aprendizado mais íngreme para iniciantes.
- Documentação pode ser menos abundante que ferramentas mais antigas.
Guia detalhado: Relatórios com fpReport. Wiki: Wiki fpReport
Fortes Report Community Edition (FRCE)
O Fortes Report nasceu na Fortes Informática, empresa brasileira, como solução comercial para Delphi. A versão para Lazarus/Free Pascal (Fortes4Lazarus) foi portada por Isaac Trindade e Luiz Américo, e hoje existe também o projeto Fortes Report 123 (GPLv3) no SourceForge. É muito usado no Brasil e tornou-se o padrão para quem busca produtividade máxima com design visual no formulário ("Design-on-Form"). É ideal quando o relatório exige lógica complexa integrada diretamente ao código fonte da aplicação.
Nível de dificuldade de aprendizado: Baixo a Médio. A interface visual no formulário facilita muito o aprendizado inicial. Quem já trabalhou com componentes Delphi/Lazarus se adapta rapidamente. A curva de aprendizado aumenta quando se precisa de lógica complexa ou personalizações avançadas.
- Acesso total a variáveis e funções do projeto via Pascal.
- Fácil depuração usando o próprio debugger da IDE.
- Editor visual integrado ao formulário (WYSIWYG).
- Ampla comunidade brasileira e documentação em português.
- Suporte a múltiplos formatos de exportação (PDF, HTML, Excel, etc.).
- Permite criar relatórios complexos com sub-relatórios e grupos.
- Dependência da LCL. Inviável para servidores Linux Headless sem virtualização de display.
- Requer ambiente gráfico para design e execução.
- Pode ser pesado para relatórios muito simples.
- Manutenção comunitária pode variar em ritmo de atualizações.
Guia detalhado: Relatórios com Fortes Report. Wiki: Wiki Fortes Report
FastReport (Lazarus Edition)
O FastReport é um produto comercial da empresa Fast Reports, líder em ferramentas de relatório para Delphi e, desde a "Lazarus Edition" (Reporting Lazarus), também para o ecossistema Free Pascal. Recebe atualizações regulares (por exemplo, séries 2024.2, 2025.1, 2025.2), com suporte a Linux e Windows, componentes LCL e código-fonte incluso na licença. Oferece editor visual de nível industrial, exportação para vários formatos e lógica avançada via PascalScript (e outras linguagens de script) dentro do próprio relatório.
Nível de dificuldade de aprendizado: Baixo a Médio. O editor visual é muito intuitivo e profissional, facilitando o aprendizado inicial. A curva aumenta quando se utiliza recursos avançados como scripts, sub-relatórios complexos e personalizações profundas. A documentação comercial é geralmente completa, mas pode exigir investimento em treinamento para recursos mais avançados.
- Editor visual de nível industrial e exportações altamente fiéis para múltiplos formatos.
- Suporte comercial profissional com atualizações regulares e correções de bugs.
- Suporte a múltiplas linguagens de script (PascalScript, C++Script, BasicScript, JScript).
- Recursos avançados: sub-relatórios, gráficos, códigos de barras, QR codes.
- Exportação para PDF, HTML, Excel, Word, imagens e muitos outros formatos.
- Código-fonte incluso na licença permite customizações profundas.
- Ampla base de usuários e documentação disponível.
- Componente comercial pago; também depende de bibliotecas gráficas (GUI).
- Custo de licenciamento pode ser proibitivo para projetos pequenos ou open source.
- Requer ambiente gráfico para design e execução (não funciona em headless).
- Dependência de uma empresa comercial; mudanças de estratégia podem afetar o produto.
- Pode ser excessivo para projetos simples que não precisam de recursos avançados.
Wiki: Wiki FastReport
fpSpreadSheet
O fpSpreadsheet é mantido no GitHub (repositório tcs-ulli/fpspreadsheet) e faz parte do Lazarus Code and Component Repository (Lazarus-CCR), com contribuições de vários desenvolvedores da comunidade. Tem histórico longo de releases (por exemplo, 1.12 em 2020, 1.14 em 2022, 1.16 em 2023, 2.0 em 2025) e desenvolvimento ativo. Não é um "relatório bandado" clássico: é uma biblioteca para criar e manipular planilhas (XLS, XLSX, ODS) de forma nativa, sem depender de Excel ou LibreOffice.
Nível de dificuldade de aprendizado: Médio. A API é relativamente intuitiva para quem já trabalhou com planilhas, mas exige conhecimento de como estruturar dados em linhas e colunas. O conceito de células e fórmulas é familiar, mas a programação manual de layouts pode ser trabalhosa. A documentação e exemplos ajudam bastante.
- Gera planilhas reais para BI sem precisar de Excel ou LibreOffice instalados.
- Independente de GUI; funciona perfeitamente em modo console.
- Suporte a múltiplos formatos (XLS, XLSX, ODS, CSV).
- Permite criar fórmulas, formatação de células, gráficos e formatação condicional.
- Desenvolvimento ativo e bem mantido pela comunidade.
- Ideal para integração com sistemas de Business Intelligence.
- Manutenção onerosa para layouts fluidos devido ao uso de coordenadas de células (A1, B2).
- Não é um gerador de relatórios tradicionais; focado em planilhas.
- Alterar layouts complexos pode exigir reescrever código significativo.
- Pode ser excessivo para relatórios simples que não precisam de formato de planilha.
Guia detalhado: Planilhas com fpSpreadsheet. Wiki: Wiki fpSpreadSheet
FPDF (fpdf4lazarus)
O FPDF original é uma classe em PHP criada por Olivier Plathey (o "F" significa livre: uso e modificação permitidos). A versão Pascal, compatível com Lazarus e Delphi, é mantida pelo Projeto ACBr (FPDF-Pascal no GitHub), rodando em Windows, Linux e Android. Não há editor visual: o desenvolvedor posiciona texto e gráficos por coordenadas no código. É uma biblioteca de baixo nível, ideal para geração em massa de documentos simples — etiquetas, boletos, recibos — com desempenho máximo e dependências mínimas.
Nível de dificuldade de aprendizado: Médio a Alto. Requer conhecimento de coordenadas e posicionamento manual. Não há editor visual, então o desenvolvedor precisa calcular posições X/Y manualmente. A curva de aprendizado é íngreme para layouts complexos, mas relativamente simples para documentos básicos. Ideal para quem precisa de controle total e não se importa em trabalhar com coordenadas.
- Performance máxima para geração de documentos simples (etiquetas/boletos) em massa.
- Dependências mínimas; biblioteca leve e rápida.
- Controle total sobre cada pixel do documento.
- Funciona em qualquer ambiente (console, servidor, desktop).
- Ideal para documentos padronizados que precisam ser gerados em grande volume.
- Mantido pelo Projeto ACBr, garantindo continuidade no ecossistema brasileiro.
- Geração de PDF puro sem dependências externas.
- Ausência de editor visual; desenvolvimento baseado em coordenadas X/Y manuais no código.
- Manutenção trabalhosa: alterar layouts exige recalcular coordenadas.
- Não é adequado para relatórios complexos com múltiplas páginas dinâmicas.
- Curva de aprendizado íngreme para desenvolvedores acostumados com editores visuais.
- Debugging visual é difícil; precisa compilar e visualizar para ver o resultado.
- Pode ser excessivamente trabalhoso para relatórios que mudam frequentemente.
Guia detalhado: Documentos PDF com FPDF. Wiki: Wiki FPDF
PowerPDF
O PowerPDF foi originalmente escrito por Takeshi Kanno para Delphi. A portagem para Lazarus foi realizada por Chtk e jesusrmx, com exemplos adicionais criados por Xno. É um conjunto de componentes visuais e não visuais para criação de documentos PDF (versão 1.2) em Free Pascal/Lazarus, disponível no Lazarus Code and Component Repository (Lazarus-CCR) sob licença LGPL. Diferente de bibliotecas que apenas geram PDFs, o PowerPDF oferece componentes visuais que podem ser arrastados para o formulário, facilitando o design de relatórios.
Nível de dificuldade de aprendizado: Médio. A presença de componentes visuais facilita o aprendizado inicial em relação a bibliotecas puramente programáticas como FPDF. No entanto, ainda requer conhecimento de como estruturar relatórios e trabalhar com os componentes. A curva de aprendizado é mais suave que FPDF, mas mais íngreme que ferramentas com editores WYSIWYG completos como Fortes Report ou FastReport.
- Componentes visuais que podem ser arrastados para o formulário, facilitando o design.
- Geração de PDF versão 1.2 sem dependências externas.
- Licença LGPL permite uso em projetos comerciais.
- Integrado ao Lazarus-CCR, facilitando instalação e manutenção.
- Suporte a imagens, texto formatado e elementos gráficos básicos.
- Funciona em Windows, Linux e outras plataformas suportadas pelo Lazarus.
- Gera apenas PDF versão 1.2 (formato mais antigo, pode ter limitações).
- Não permite ler ou modificar PDFs existentes; apenas criação.
- Recursos mais limitados que ferramentas comerciais ou mais modernas.
- Desenvolvimento pode estar menos ativo que outras alternativas.
- Documentação pode ser menos abundante que ferramentas mais populares.
- Editor visual menos sofisticado que FastReport ou Fortes Report.
Guia detalhado: Documentos PDF com PowerPDF. Wiki: Wiki PowerPDF
Conclusão
A escolha do motor de relatórios continua sendo uma decisão de longo prazo: não há "melhor" ferramenta em absoluto, apenas a mais adequada ao seu cenário, à sua equipe e ao risco que você está disposto a assumir. Resumindo:
- LazReport é a opção integrada ao Lazarus: editor visual independente do código, relatórios em arquivos externos e curva baixa a média. Ideal para quem quer design WYSIWYG sem depender do formulário e aceita usar PowerPDF/fpSpreadsheet para exportação.
- fpReport é a opção natural para backends, APIs e servidores headless, com a vantagem de ser mantido oficialmente pela Free Pascal and Lazarus Foundation — uma aposta segura em termos de continuidade.
- Fortes Report (FRCE) e FastReport atendem bem aplicações desktop com interface gráfica, com editor visual e curva de aprendizado mais suave. FRCE é gratuito e muito usado no Brasil; FastReport é comercial e oferece suporte e recursos de nível industrial.
- fpSpreadsheet resolve quando o objetivo é gerar planilhas (XLS, XLSX, ODS) para análise ou BI, e não relatórios bandados tradicionais.
- FPDF atende quem precisa de PDFs simples em alto volume (etiquetas, boletos, recibos), com controle total e dependências mínimas, aceitando uma curva de aprendizado mais alta em troca de desempenho.
- PowerPDF oferece um meio termo: componentes visuais para facilitar o design, mas com recursos mais limitados que ferramentas comerciais. Adequado para projetos que precisam de PDFs básicos sem a complexidade de bibliotecas puramente programáticas.
fpReport e LazReport são altamente recomendados por já pertencerem ao ecossistema oficial do Free Pascal e do Lazarus. Essa integração elimina o risco de ter que reescrever relatórios no futuro por falta de manutenção — uma preocupação legítima ao escolher ferramentas de terceiros ou projetos comunitários sem garantias institucionais.
Antes de fixar a decisão, vale testar em protótipo, considerar o nível de dificuldade de aprendizado da equipe e, sempre que possível, manter os relatórios fora do binário principal. Assim você preserva flexibilidade para evoluir — ou, se um dia for necessário, migrar — sem reescrever o núcleo da aplicação.